Uma foto do perfil do Instagram. Outra da festa junina da escola. Outra com o uniforme do time. Nenhuma tem nada de errado. Mas, desde 2023, em escolas do Rio de Janeiro, de Pernambuco, de São Paulo, de Minas Gerais e de outros estados, alunos usaram fotos assim das colegas para fabricar com inteligência artificial nudes que nunca existiram, e fizeram essas imagens circularem em grupos de WhatsApp, no Telegram, em redes sociais e até em sites pornôs.

As imagens são falsas. O dano, não. Este guia é para mães, pais e professores que querem entender o que está acontecendo, o que diz a lei brasileira e, principalmente, como acompanhar meninas e meninos, seja qual for o lugar em que estejam: o de quem sofre, o de quem recebe a imagem ou o de quem a fez.
Aviso: este texto fala de violência sexual digital contra crianças e adolescentes. Não traz imagens nem descrições explícitas.

Um deepfake é uma imagem, um vídeo ou um áudio criado ou alterado com inteligência artificial para parecer real. Quando é sexual, pega o rosto de uma pessoa real e junta com um corpo nu ou uma cena de sexo que nunca aconteceu.
Nos casos em escolas aparecem, em geral, dois tipos de ferramenta:
O que mudou com a IA não foi a intenção, que é antiga, mas a facilidade: não é mais preciso saber editar. Por isso esses casos aparecem entre alunos do ensino fundamental e médio.
Mesmo que a imagem seja falsa, quando a pessoa retratada é menor de idade, trata-se de material de abuso sexual infantil. É o que diz o UNICEF: imagens sexualizadas de crianças e adolescentes geradas ou manipuladas com IA são material de abuso sexual infantil (UNICEF, fevereiro de 2026). E, como você vai ver mais abaixo, a lei brasileira passou a dizer isso com todas as letras.

O padrão se repete: a grande maioria das vítimas são meninas, e quem cria ou espalha costuma ser colega da mesma escola.
Todos estes casos foram publicados pela imprensa. Os números são os informados na época. Como os envolvidos são adolescentes, as investigações correm em sigilo e muitas não têm desfecho público.

Rio de Janeiro (RJ), novembro de 2023. Famílias de uma escola particular da Barra da Tijuca denunciaram que alunos do 7.º ao 9.º ano usaram IA para colocar o rosto de cerca de 25 colegas, de 14 a 16 anos, em corpos nus, e espalharam as imagens nas redes. «As meninas estão tendo crise de ansiedade e chorando», contou uma mãe (Gazeta do Povo). Em dezembro, a delegacia especializada (DPCA) fez busca e apreensão na casa de dois alunos (SBT News).
Recife (PE), novembro de 2023. Cerca de 40 alunas, com média de 14 anos, de uma escola particular tiveram nudes falsos espalhados. A Polícia Civil abriu inquérito, e pelo menos quatro alunos foram apontados como autores (Jovem Pan).
Sorocaba (SP), agosto de 2024. Um aluno de 14 anos foi apontado como suspeito de alterar fotos de colegas com um aplicativo de IA. O caso foi registrado na Delegacia da Mulher como ato infracional e encaminhado à Vara da Infância (Folhapress via Tribuna Online).
Belo Horizonte (MG), junho de 2025. Mães de alunas de uma escola particular denunciaram montagens feitas com IA a partir de fotos das redes sociais. «Eles pegam fotos do rosto delas nas redes sociais e colam, com inteligência artificial, em corpos nus», relatou uma mãe. A Polícia Civil abriu inquérito e a Promotoria da Infância do Ministério Público acompanhou o caso (Estado de Minas).
Indaiatuba (SP), setembro de 2025. Montagens de pelo menos 13 alunas de uma escola particular foram publicadas em um site pornô. A Delegacia da Mulher investigou três adolescentes suspeitos (Metrópoles).
O fenômeno não é só brasileiro. Na Argentina, em outubro de 2026, cerca de 50 alunas de uma escola de Lomas de Zamora, na Grande Buenos Aires, denunciaram montagens desse tipo, e a Justiça fez buscas na casa de quatro alunos; em Ituzaingó foi aberta outra investigação parecida (Perfil). Em 2024, em San Martín, um aluno de 15 anos foi investigado por alterar fotos de pelo menos 22 colegas e vender «packs» com as imagens (La Nación).
No México, em novembro de 2025, alunas de uma escola secundária técnica (equivalente aos anos finais do ensino fundamental) em Zacatecas denunciaram que colegas do último ano espalharam imagens e vídeos sexuais delas criados com IA. A Promotoria estadual registrou 46 denúncias, e o diretor e uma assistente social foram afastados enquanto se investigava a conduta da escola (N+).
Quem é vítima de um deepfake sexual não sente que «não aconteceu nada porque não é o meu corpo». O que vive se parece muito com o que vivem as vítimas de vazamento de nudes reais:
E há o silêncio. Segundo a pesquisa da Thorn com jovens nos Estados Unidos, 62% de quem nunca foi vítima diz que contaria para a mãe ou o pai, mas, entre quem passou por isso, só 34% contou (Thorn, março de 2025). É esse silêncio que mais podemos mudar em casa.

A lei mudou bastante entre 2025 e 2026. Este resumo reflete o que está em vigor em outubro de 2026 e não substitui a orientação de um advogado ou de uma advogada, da Defensoria Pública ou do Ministério Público.
Criar a montagem é crime. Desde agosto de 2026, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) pune com reclusão de 3 a 5 anos quem «simular a participação de criança ou adolescente em conteúdo de violência sexual» por meio de montagem ou modificação de foto ou vídeo, «inclusive com uso de inteligência artificial» (art. 241-C, com a redação da Lei 15.487/2026).
A imagem falsa conta como material de abuso. A mesma lei definiu que material de violência sexual contra criança ou adolescente é qualquer representação que envolva criança ou adolescente, «real ou fictício», inclusive gerada com inteligência artificial (art. 241-E). Ou seja: não importa que o corpo da imagem não seja da vítima.
Espalhar e guardar também são crimes. Divulgar esse material dá reclusão de 4 a 10 anos (art. 241-A), e adquirir, possuir ou armazenar, de 3 a 6 anos (art. 241-B). O próprio ECA esclarece que não há crime quando a posse serve para comunicar o fato às autoridades (ECA).
Quando a vítima é adulta, como uma professora, valem as regras do Código Penal: fazer montagem para incluir alguém em cena de nudez ou ato sexual (art. 216-B, parágrafo único) e divulgar cena de sexo ou nudez sem consentimento (art. 218-C, hoje com pena de 4 a 10 anos). Se for violência psicológica contra a mulher, a pena aumenta pela metade quando se usa inteligência artificial (art. 147-B, Lei 15.123/2025) (Código Penal).
As plataformas têm obrigações. O ECA Digital (Lei 15.211/2025), em vigor desde 17 de março de 2026, obriga os serviços digitais a:
Além disso, o Decreto 12.976/2026 proíbe os provedores de aplicações de internet de gerar ou modificar conteúdo íntimo de terceiros com inteligência artificial (art. 9.º) e exige que bloqueiem esse tipo de pedido (art. 10). O governo também foi atrás dos sites de «nudificação»: em abril de 2026, a AGU notificou o Google para tirar esses sites das buscas, e em agosto o Ministério da Justiça pediu à Polícia Federal e à ANPD que avaliassem o bloqueio de 80 sites indicados pela SaferNet (DGABC/Estadão).
E se quem fez for adolescente? Menores de 18 anos não respondem criminalmente: respondem por ato infracional, com medidas socioeducativas que vão da advertência e da obrigação de reparar o dano até a internação (ECA, arts. 104 e 112). Os pais podem ter de responder civilmente pelos danos causados pelos filhos (Código Civil, art. 932).
E a escola? Diante de suspeita de violência contra criança ou adolescente, a comunicação ao Conselho Tutelar é obrigatória (ECA, art. 13), e os responsáveis por estabelecimentos de ensino que deixam de comunicar podem ser multados (art. 245).
Na Argentina e no México, em resumo. Na Argentina, o art. 128 do Código Penal pune a produção e a difusão de «toda representação» de menores de 18 anos em atividades sexuais explícitas, e em 2025 um tribunal de apelação entendeu que isso inclui imagens geradas com IA (Rosario3). No México, a Lei Olimpia pune a violação da intimidade sexual, e uma reforma para mencionar expressamente a IA estava no Senado em setembro de 2026 (AM / El Universal).

Nenhum sinal sozinho prova nada. O importante é perceber mudanças em relação ao jeito de sempre do seu filho ou da sua filha e abrir uma conversa, sem interrogatório.
Para professores: silêncios repentinos em um grupo de alunas, risadas ou olhares quando uma estudante entra na sala, celulares passando de mão em mão entre meninos, faltas que se repetem em uma mesma turma.
Se você usa o Xoul, mudanças assim (mais silêncio, distância do grupo, vontade de não ir à escola) podem aparecer no relatório ou nas Novidades, com uma ideia para abrir a conversa. O Xoul não mostra as mensagens: mostra como seu filho ou sua filha está.

É uma das notícias mais difíceis de receber. Acompanhar não é justificar, e também não é abandonar.
Se recebeu: não encaminhe, não comente, não guarde e conte para um adulto de confiança. Se puder, diga à vítima que ela não está sozinha. Quem recebe e fica calado também faz parte da corrente, e quem a interrompe faz diferença.

Não é preciso esperar acontecer alguma coisa. Algumas ideias para começar:
Se você usa o Xoul, a ideia para conversar que vem em cada relatório pode ser um bom jeito de começar.

Argentina: Linha 102 (direitos de crianças e adolescentes), Linha 137 (violência familiar e sexual; pelo WhatsApp +54 9 11 3133-1000), promotoria ou delegacia mais próxima. Emergência: 911.
México: 088 da Guarda Nacional (crimes cibernéticos), denúncia on-line no Te Protejo México, Ministério Público do seu estado. Saúde emocional: Línea de la Vida, 800 911 2000. Emergência: 911.
Sim. Desde agosto de 2026, o ECA diz expressamente que simular a participação de criança ou adolescente em conteúdo sexual com inteligência artificial é crime, e que o material de abuso inclui representações «reais ou fictícias».
Não. Postar uma foto não é dar permissão para que ela seja manipulada. A responsabilidade é de quem altera e de quem espalha.
Não encaminhar nem guardar, sair do grupo se continuarem compartilhando e contar para você. Se vocês conhecem a vítima, podem avisá-la ou avisar a família com cuidado, e também a escola.
Sim. Pelo ECA Digital, a plataforma deve retirar o conteúdo assim que for comunicada pela vítima ou pela família, sem precisar de ordem judicial. Antes, guarde os dados de onde a imagem apareceu (não a imagem) para poder denunciar.
Os deepfakes sexuais mostram algo que já sabíamos: o que acontece no celular também acontece na escola, no corpo e no humor dos nossos filhos. Proibir não basta, e espionar quebra a confiança de que precisamos para que eles nos contem. O que mais protege é um vínculo em que dê para dizer «aconteceu uma coisa comigo» sem medo.

O Xoul analisa, com o consentimento do seu filho ou da sua filha, a atividade do WhatsApp dele ou dela e envia a você um relatório a cada 4 dias sobre como ele ou ela está emocionalmente e sobre possíveis riscos, sem mostrar as conversas. Se aparecerem sinais de angústia, conflitos com colegas ou situações de exposição, você vai vê-los no relatório ou nas Novidades, com sugestões para abrir a conversa. O Xoul não substitui a conversa em casa: ajuda você a saber quando é um bom momento para tê-la.
O primeiro relatório é grátis e chega em 10 minutos.
Com o Xoul, você recebe relatórios privados sobre riscos, emoções e momentos importantes, sempre com um olhar respeitoso.

